Tava eu lá, no meu último kyukei, sem esperar mais nada do dia, a não ser seu término...
Biscoitinho água e sal, leitinho de soja e uma conversa vinda do outro canto da mesa... Um senhor, brasileiro, conversava com um jovem, cara de japa, mas como falava espanhol, rotulei-o como peruano. O jovem sai da mesa e o senhor puxa conversa comigo:
- Viu esse rapaz aí? Viu como ele fala espanhol sem sotaque nenhum? E ele é japonês!
- Sério? Eu jurava que fosse peruano, ou argentino...
- Pois é! E além de espanhol, fala francês, também quase sem sotaque! Ele diz que gosta de aprender novos idiomas e conhecer outras culturas! Parece que esteve um tempo na Europa, e agora está trabalhando aqui pra 'pagar' a mãe que bancou as despesas!
- Puxa vida! Estou admirada! É muito bom ver japoneses com a cabeça aberta para o mundo! Eles me parecem viver, literalmente, numa ilha, isolados do resto do mundo, sem conhecer ou entender, ou mesmo sem se interessar pelo que se passa lá fora...
- Sabe que isso me lembra uma conversa que tive uma vez com um amigo japonês? A gente falava sobre essa coisa toda do preconceito que os japoneses têm em relação aos estrangeiros e ele me disse bem assim: "não é que a gente tenha preconceito em relação a vocês, estrangeiros. A gente não sabe quem vocês são, de onde vêm, o que faziam lá, que idioma falam, o que gostam de fazer, como vivem... e falando francamente, para a maioria dos japoneses, principalmente para os que vivem no inaká, NÃO INTERESSA saber! Então, não pense que é discriminação; é que não faz diferença saber, conhecer... os japoneses só não têm curiosidade em conhecê-los."
A conversa seguiu... Por muitos rumos e com muito mais detalhes do que aqui escrevo! Falamos sobre como nós brasileiros somos mais 'acostumados' com a diversidade, pois convivemos lá, com gente de tudo quanto é jeito, de tudo quanto é lugar! Não que tenhamos atingido o ideal, mas lidamos melhor com isso! Pensa só: aqui praticamente só tem japonês! Falamos como lá no Brasil, ficamos curiosos ao ouvir alguém falando algum idioma nunca ouvido ('que raio de língua é essa??'), sobre como tentamos, com todos os artifícios possíveis, nos comunicar com um estrangeiro, para ajudar no que for possível...
Final da história: estourei meu tempo de kyukei ( 'Aimeudeus'! Tomara que o chefe não perceba!)!!
Mas que nada! Nem me importei com isso! Saí da salinha com a sensação de ter recebido um presente: porque eu não esperava, naquela hora, naquele ambiente, ter uma boa conversa com um quase desconhecido, sobre algumas das 'idéias enroladas' da minha cabeça!
E não sei dizer se isso que o amigo japonês falou pra esse senhor é o que acontece de fato, ou se é algo só dele mas, de qualquer forma, fiquei intrigada porque nunca tinha pensado dessa maneira... E me deu uma vontade de me mudar pra Tókio! Ver se lá tem gente mais interessada, e portanto, mais interessante do que aqui entre os tambôs e o feliz coaxar das pererecas...
Idéiais, idéias... bem das enroladas...